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08/05/2017 | 19h34

Tecnologia

Indústria 4.0 é chave para a competitividade

Especialistas apontam caminhos para a nova realidade virtual das fábricas


SUELI REIS, AB

Workshop AB debate o advento e os rumos da indústria 4.0 no Brasil (Fotos: Luiz Prado)
Enquanto os mercados globais mais maduros já vivem uma nova realidade virtual no que diz respeito à manufatura inteligente e internet das coisas, a chamada indústria 4.0, o Brasil ainda engatinha neste aspecto, embora isso seja positivo, considerando as várias e diferentes etapas que este processo de atualização e modernização das fábricas exige. Apontado como um caminho sem volta, a introdução destes novos e complexos métodos de manufatura pode ser a chave que finalmente abrirá as portas da competitividade brasileira, aspecto tão almejado pelas empresas instaladas por aqui. Este foi o tema central que conduziu o II Workshop A Indústria 4.0 e a Revolução Automotiva, promovido por Automotive Business na segunda-feira, 8, no Milenium Centro de Convenções, em São Paulo.

Para o diretor da PricewatershouseCoopers, Marcelo Cioffi, que abriu os trabalhos do evento, as exportações, que seguem com tendência positiva, ao contrário do mercado interno, ainda enfrenta profunda crise, se apresenta como uma saída a curto prazo. Sua análise aponta expectativa de crescimento para os principais mercados globais, inclusive para a América do Sul, cujas projeções do consultor apontam alta de 4% ao ano até 2023. Contudo, repensar as vendas de veículos a mercados externos como estratégia de negócio requer atualização/modernização do parque fabril a fim de oferecer o que o mundo quer, um veículo cada vez mais conectado, isto sem mencionar itens de conforto e segurança.

“Debater a indústria 4.0 é importante para trazer novas tecnologias e a indústria brasileira precisa de algo mais perene e mais sustentável. Já passaram mais de 10 anos desde que o Brasil bateu seu recorde de exportações [2005]. É preciso voltar a buscar as exportações a partir da inserção dessas tecnologias”, afirma Cioffi.

Tais transformações para consolidar um cenário de internet industrial passam por todos os ambientes que envolvem o negócio, desde o chão de fábrica, até engenharia de produto e gerenciamento estratégico dentro e fora das plantas, o que inclui logística e pós-venda. O diretor da indústria automobilística na KPMG, Ricardo Bacellar, alerta que a mudança que a internet das coisas vai promover abrange um universo amplo, muito além das indústrias. Neste contexto, uma das questões a serem consideradas é sobre o papel que as montadoras vão desempenhar neste processo. Ele apresenta parte do resultado da pesquisa anual da KPMG sobre o setor e aponta: “Não há mais tanta expectativa de crescimento das receitas a partir das vendas de veículos; a receita relacionada com esta atividade fim será cada vez menor. A maioria esmagadora acredita que a receita estará cada vez mais atrelada a produtos e serviços”, demonstra.

A maneira como as empresas vão utilizar os dados gerados a partir destas conexões em massa e não só industrial também é ponto fundamental dentro da estratégia do negócio, podendo ainda gerar oportunidades: “O futuro da indústria automotiva é claramente o de serviços suportados por dados e precisamos estar prontos para entregá-los. Desenvolver os serviços com estrutura para que elas gerem serviço ao consumidor e oportunidade de receita para as empresas. Quanto mais tecnológico o ambiente, maior o potencial para oportunidades de negócios”, afirma.

Outro ponto a considerar dentro destas mudanças é o impacto que isto vai gerar nas companhias. Para a sócia-líder do setor de telecomunicações, mídia e tecnologias da Deloitte, Márcia Ogawa, as tecnologias embarcadas vão mudar os modelos de negócios porque vão impactar não só o carro em si, mas todo o ambiente fora dele a partir da perspectiva do consumidor. Ela aponta pesquisa com mais de 20 mil consumidores no mundo e revela a sede do brasileiro por este tipo de avanço tecnológico, seja ele de conectividade ou mesmo de segurança mais intuitiva.

“Mais de 46% estão dispostos a pagar por elas, sejam tecnologias de segurança ou de conectividade, sendo que as novas gerações têm maior disposição em pagar. No Brasil, nosso consumidor está esperando esse tipo de tecnologia e 55% acredita que estas novas tecnologias virão de dentro das fábricas, a partir das próprias montadoras”, revela. “É urgente e emergencial a entrada do Brasil na indústria 4.0; isto fará com que as nossas empresas sejam mais produtivas e competitivas.”

Contudo, ela admite que o País apresenta gargalos para a vinda destas novas ferramentas, como aspectos tributários e impostos de importação: “Necessita sim de mais dinamismo e permitir a vinda de mais tecnologia; para se ter uma indústria moderna, precisa enriquecer as opções. Vai depender de devidos acordos para internalizar e para que possamos dar saltos nesta questão. A agricultura já está dando passos largos neste sentido; acredito que é chegada a vez da manufatura.”


A partir do alto e da esquerda em sentido horário: Marcelo Cioffi (PricewatershouseCoopers), Ricardo Bacellar (KPMG), Márcia Ogawa (Delloite) e José Rizzo (Pollux)

FUTURO PALPÁVEL

Segundo o CEO da Pollux, José Rizzo, 2017 marcará uma mudança efetiva na criação de novos ecossistemas, a maneira como é denominada os ambientes inteligentes da indústria 4.0. Ele apresenta uma pesquisa cujos resultados apontam que 40% das 500 maiores empresas vão sumir nos próximos 10 anos. “Se a velocidade de mudança é maior fora da empresa do que dentro, então o fim está próximo. Nunca essa velocidade de mudanças externas foi tão grande”, atesta.

Seus números revelam a discrepância do Brasil e outros mercados em termos de automação, um dos pontos cruciais para dar o primeiro passo na indústria 4.0: enquanto Estados Unidos possui de 250 a 300 robôs para cada 10 mil habitantes, este índice no Brasil não passa de 10. “Nos últimos três anos, instalamos 1,5 mil robôs no Brasil. Se continuar neste ritmo, nem 100 anos tiraria essa defasagem.” Para que o Brasil não fique tão atrás nesta corrida pela modernização de suas indústrias, a empresa desenvolveu um modelo de atendimento ao cliente em que não há investimento inicial no robô, visto que a maior parte das empresas do setor, principalmente as da cadeia de autopeças, tem dificuldades financeiras para aplicar em modernização. “Estamos no primeiro ano de aplicação e quinze empresas optaram por este modelo”, conta.

Segundo Rizzo, outros aspectos como a queda do preço de sensores, que são componentes essenciais na composição de uma estrutura de maquinário inteligente, é um impulsionador importante neste processo de automação. “Estima-se que 50 bilhões de ‘coisas’ serão conectadas em 2020. Há uma oportunidade de US$ 15 trilhões nos próximos 15 anos em novos produtos e serviços revolucionários, mudando a forma como o mundo funciona e incentivando a melhoria do nível de serviço, com menos interrupções e paradas não previstas.”

Embora haja exemplos de fábricas brasileiras que já adotaram características da indústria 4.0, principalmente as mais recentes, é clara que este ecossistema de informação é muito mais presente nas montadoras e menos tangível na cadeia de autopeças. “O que não tem ainda é esse passo da interação, acredito que seja o maior gap”, pondera o gerente de negócios automotivos da Siemens, Daniel Coppini. “É necessário fazer uma análise e chegar em um plano diretor de automação; começar com micro-projetos para chegar lá”, afirma. O diretor de estratégia de mercado da Siemens Digital Factory, Process & Drives, José Borges, completa: “A tecnologia está aí; não existe digitalização sem a etapa anterior da automação”, sugere.

O vice-presidente da PTC para a América Latina, Carlos Beato, concorda e aponta algumas diretrizes que podem indicar um começo: “Acredito que a receita de como transformar a indústria 4.0 em realidade seja o passo a passo, considerando três etapas: entendimento do que é esta revolução; evolução dentro dos aspectos físicos e superação; mas cada empresa tem uma realidade e diferentes necessidades dentro da cada uma das etapas. Entender o ponto A antes de ir para o B, que por sua vez não é o ponto Z, não se pode adotar tudo de uma vez. Procure ajuda de especialistas, comece com o resultado desejado em mente, não faça um projeto piloto sem um objetivo claro; e quebre a inércia, comece já sua jornada de indústria 4.0”.

Por fim, o evento contou com um debate de especialistas sobre todos os aspectos abordados ao longo do dia. Participaram o CEO da Thyssenkrup, Daniel da Rosa, o diretor da Kuka Roboter, Edouard Mekhalian, o diretor comercial da Festo, Renato Biondo, o diretor de business excellence da ZF América do Sul, Renato Orlando, e o diretor de vendas e serviços para a indústria automotiva da T-Systems, Ricardo Michelan.


A partir do alto e da esquerda em sentido horário: José Borges e Daniel Coppini (Siemens), Carlos Beato (PTC), e os debatedores Daniel da Rosa (Thyssenkrup), Edouard Mekhalian (Kuka Roboter), Renato Biondo (Festo), Renato Orlando (ZF) e Ricardo Michelan (T-Systems)

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